Maduro barra a entrada dos que tentam voltar ao país fugindo da pandemia do novo coronavírus no Brasil e Venezuela. Migrantes venezuelanos chegam a acampamento perto de terminal de ônibus em Bogotá, na Colômbia, onde outros migrantes esperam conseguir ajuda para voltar para casa, em foto de 8 de junho
AP Photo/Fernando Vergara
O regime comandado por Nicolás Maduro tacha como armas biológicas os refugiados que fugiram da fome e de perseguições e agora querem regressar à Venezuela para escapar da pandemia nos países vizinhos. Em vez de serem acolhidos e repatriados, os migrantes são tratados como potenciais transmissores do novo coronavírus e barrados nas fronteiras.
Maduro culpa os retornados pelo aumento de casos no país e estimula a discriminação contra eles. Em cadeia nacional, justificou as restrições impostas a quem tenta regressar e consegue burlar a vigilância em cidades fronteiriças: estes venezuelanos devem ser denunciados como infratores porque põem a população em risco.
“Todo o esforço que fizemos, e para que uma pessoa por capricho e irresponsabilidade acabe contaminando sua família. Se você tem um vizinho, chame a polícia, as Forças Armadas, o hospital de prontidão mais próximo para que possamos buscar essa pessoa”, recomendou o ditador.
O regime informa que o número total de infectados pela Covid-19 é 2.473, com apenas 22 mortes, mas esta cifra é vista com desconfiança entre associações médicas do país: faltam testes para os doentes e não há transparência por parte do governo chavista.
Sem poder ingressar no país, centenas famílias refugiadas permanecem no limbo, acampadas em Cúcuta, na fronteira colombiana, dormindo no chão, em condições desumanas. São o retrato das contradições do regime que se intitula como socialista.
A cúpula chavista tenta vender a ideia de que os retornados de Brasil e Colômbia fogem da xenofobia, mas o motivo principal para regressarem ao país é o temor da pandemia nestes países. São andarilhos, que passam fome e frio até chegar à fronteira venezuelana.
O deputado opositor Carlos Valero, membro da Comissão de Política Exterior da Assembleia Nacional, acusa o governo de violar a liberdade de movimento e o direito de venezuelanos de residir em seu próprio país.
“É desumano e cruel fechar as portas de nosso país a nossos irmãos e mantê-lo na intempérie, esperando dias sem a certeza de que poderão entrar no país”, denunciou pelas redes sociais.
Nos últimos anos, as dificuldades impostas pelo regime de Maduro fizeram 5 milhões de venezuelanos emigrarem, em busca de melhores condições econômicas ou políticas.
Investigadora associada do Centro de Direitos Humanos da Universidade Católica Andrés Bello e responsável pela área de migrantes e refugiados, a socióloga Ligia Bolívar explica ao G1 que 71 mil emigrantes retornaram ao país, por vontade própria, durante a pandemia do novo coronavírus.
“Não houve regresso massivo, esta cifra representa menos de 2% da diáspora. É inaceitável que o governo responsabilize os refugiados pela pandemia e dissemine uma corrente de opinião de que regressam da Colômbia com o vírus inoculado como uma arma química.”
O natural seria que, ao entrarem no país, recebessem acolhida em albergues. Em abril, segundo a investigadora, havia espaço para 9.615 pessoas nesses alojamentos do governo, ocupados por 6.539 migrantes, colocados em quarentena preventiva.
“Temos testemunhos de que 20 dias depois testaram negativo, mas não os deixaram sair. Ou seja, estão sob custódia militar. Não é um cordão sanitário, mas um quartel”, atesta Lígia Bolivar.
O governo aponta 96 novos casos em 24 horas — todos, segundo a vice-presidente, constatados em venezuelanos oriundos da Colômbia, que teriam ingressado pelos estados de Táchira e Apure.
Alinhada com Maduro, a vice-presidente Delcy Rodríguez insiste na tese de que o inimigo vem de fora – no caso, os que regressam da Colômbia e do Brasil representam a principal ameaça aos venezuelanos. A xenofobia, portanto, parece partir do regime, que trata seus cidadãos como estrangeiros, renegando-os como párias.
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