Barraqueiro e vendedores de caldinho e camarão relatam dificuldades e acúmulo de dívidas por causa do fechamento da orla, meses depois do derramamento de petróleo. Header – A Vida Na Pandemia
G1
Orla de Boa Viagem vazia devido às restrições de isolamento social
Reprodução/TV Globo
Em 3 de setembro de 2019, uma substância escura e oleosa apareceu na areia da praia de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife. O que parecia ter sido um episódio misterioso e pontual se transformou em um dos maiores desastres ambientais do país. Para quem sobrevive do mar, como pescadores, comerciantes e trabalhadores do setor do turismo, o petróleo nas praias foi como um tiro certeiro na economia de milhares de famílias.
As perdas, que duraram até o fim daquele ano, começavam a ser recuperadas em 2020, quando a pandemia do novo coronavírus fez com que diversos estados fechassem as praias, por meio de decretos, para evitar a disseminação da Covid-19. Entre elas, a Praia de Boa Viagem, que, com seus oito quilômetros de extensão, é a única fonte de renda de centenas de famílias.
Um dos prejudicados é Wagner Santos, conhecido como Família, de 38 anos, que encontrou o sustento da casa depois de ter sido demitido do emprego, três anos atrás, na venda do caldinho, iguaria tipicamente pernambucana que é um dos produtos mais vendidos na cidade.
“São quase 2 meses sem pegar em dinheiro, mas entendo a necessidade. Sei de umas dez pessoas que morreram de coronavírus e outros amigos que pegaram a doença. É favela… todo dia é dia, é como se nada estivesse acontecendo. Onde eu moro, nem água chega. A gente tenta se higienizar, usar máscara, fazer limpeza, fazer o que pode, mas está difícil. As dívidas estão virando uma bola de neve. Já bloquearam meu telefone, mandaram carta para pagar”, disse.
O fechamento de praias e parques, em todo o estado, começou no dia 4 de abril e foi prorrogado por tempo indeterminado. Os entrevistados relataram ao G1 que receberam o auxílio emergencial de R$ 600 do governo, mas que o dinheiro foi insuficiente para contas básicas da casa. Para eles, foi suficiente apenas para pagar a conta de energia elétrica.
Wagner trabalha vendendo caldinho em Boa Viagem
Reprodução/WhatsApp
Wagner, que mora no Ibura, também na Zona Sul, era comerciante. A falta de qualificação, aliada à crise econômica, tornou uma tarefa cada vez mais difícil a reinserção no mercado de trabalho. Conversando com vizinhos, ele descobriu a possibilidade de vender caldinho. Segundo ele, a maioria dos vendedores de caldinho que circulam em Boa Viagem são do Ibura.
“O desemprego estava muito difícil. Não tenho estudo e, por isso, optei por ser ambulante. Comecei trabalhando para os outros e, depois, decidi fazer meu próprio caldinho. Minha esposa prepara e eu vendo. Com o óleo nas praias, muita gente parou de ir a Boa Viagem, com medo. Agora, estávamos nos recuperando. Estava tudo voltando aos eixos, mas, com a pandemia, a orla fechou. Sem praia, não tem caldinho. A renda zerou totalmente. Dou graças a Deus pelas pessoas solidárias, que têm sido a salvação”, afirmou o comerciante.
Família ganhou o apelido pelo fato de o comércio dele ser gerido entre os próprios parentes. Ele tem quatro filhos: uma adolescente de 15 anos; um menino de 10; outro de 8 anos; e um quarto, de 7. Todos frequentam a rede pública de ensino e, também por causa da pandemia, tiveram as aulas suspensas. Para o comerciante, os efeitos da pandemia têm sido devastadores.
Família, mesmo trabalhando como ambulante, sempre fez questão de se regularizar como comerciante. Ele é cadastrado como Microempreendedor Individual (MEI) e paga, mensalmente, os impostos necessários para manter o registro. Ele reclamou da falta de apoio do poder público aos trabalhadores da praia.
“Somos o elo mais fraco. Tivemos uma grande baixa na questão do óleo, principalmente quem trabalha com ostra, peixe, camarão, como nós, que vendemos caldinho. A gente se formaliza, planta os direitos, mas na hora de colher, é um problema. Falta apoio do governo”, afirmou.
‘Desde o óleo não conseguimos trabalhar’, diz vendedor de camarão afetado pela pandemia
‘Minha vida inteira foi na praia’
Andreilson Santos, o André, vende camarão na Praia de Boa Viagem desde os 6 anos de idade. Aos 36, ele fez da venda de crustáceos a fonte de renda para ele e para os cinco filhos: duas adolescentes de 17 e 15 anos; um menino de 11 anos; uma garota de 7 anos; e um bebê de 1 ano. Ele estima que a venda diminuiu cerca de 60% no desastre ambiental e, na pandemia, praticamente zerou (veja vídeo acima).
“Eu vendia em torno de 150, 200 quilos de camarão em setembro do ano passado. Com o óleo, comecei a vender 60 quilos. Todo mundo tinha medo de contaminação, claro, mesmo meu produto sendo de viveiros, na Paraíba. Eu explicava, cliente por cliente, mas o pessoal tinha receio. Toda semana eu vou buscar lá e saio com ‘coolers’ pela praia, vendendo, do jeito que a Vigilância Sanitária manda, tudo certinho. Agora, essa fase está difícil”, declarou.
Com a separação dos pais, na infância, André começou a trabalhar aos 6 anos, para sobreviver. Contando com ele, os pais tinham nove filhos.
“Minha vida inteira foi na praia, aquilo é minha vida. Estou no comércio desde criança. Comecei porque não tinha condições financeiras de sobreviver sem trabalhar, mesmo na infância. Meus pais se separaram muito cedo na minha vida e tudo complicou. Está muito difícil sem emprego e sem renda. Só faço pagar contas, sem perspectiva de me restabelecer”, afirmou.
Desde o fechamento das praias, parques e calçadões, o único contato com o mar, que por tanto tempo fez parte da vida de André, foi no domingo (7). Ele foi a Boa Viagem, não para vender os camarões que acumula, em casa, nos freezers, mas para pescar. No estado, está mantida a permissão para atividade de pesca artesanal e profissional.
“Meus gastos pioraram com a pandemia. Tenho freezers que estão ligadas 24 horas por dia, para não pôr a mercadoria a perder. A conta de energia elétrica aumentou. Tenho que pagar aluguel da minha casa. Já peguei empréstimo no banco e tudo. Está, realmente, muito difícil para quem vive da praia”, declarou.
Atualmente, há 476 barraqueiros cadastrados em Boa Viagem – foto de arquivo
Marlon Costa/Pernambuco Press
‘Quem atrai o turista é o comerciante’
Aureliano Francisco de Lima, o Léo, tem 48 anos. Desses, 40 foram dedicados à Praia de Boa Viagem, onde atua como um dos 476 barraqueiros cadastrados para trabalhar na faixa de areia. Ele se intitula como um “moleque da Avenida Boa Viagem”, por ter a vida concentrada na via, uma das mais nobres da cidade.
Para ele, muito mais que pela paisagem comprometida pelo paredão de prédios que ficam em frente a um dos principais cartões-postais da cidade, um dos maiores atrativos aos turistas é a hospitalidade dos barraqueiros.
“Quem atrai o turista é o comerciante, ele gosta do nosso serviço e volta, só que o governo não vê isso. Estamos prejudicados desde o inverno de 2019, que foi bastante rigoroso. É uma paulada atrás da outra, porque veio o óleo e, agora, a pandemia. Essa questão do óleo se estendeu até dezembro e nosso carro chefe é a comida, os petiscos, frutos do mar. Se ninguém comia, nossa renda ficou comprometida”, afirmou Léo.
Os pais de Léo foram os fundadores da barraca que ele herdou. Ele disse que, com o dinheiro do comércio à beira-mar, terminou de criar alguns dos seis irmãos. A profissão de barraqueiro corre na família, já que uma das irmãs dele também tem um comércio na praia, só que na vizinha Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. Ela, assim como ele, foi afetada pela pandemia.
“Todo mundo foi afetado. Os meus outros irmãos são pedreiros, manicure ou diarista. Todos deixaram de trabalhar por causa da pandemia. Vejo meus amigos passando necessidade, meus vizinhos, meus familiares e me desespero. Eu tive direito a cesta básica pela prefeitura, mas muitos meninos que vendem amendoim e camarão, por exemplo, não tiveram direito. A situação deles é ainda pior”, declarou.
Ibura
Localizado na Zona Sul da cidade, o Ibura é um dos bairros mais populosos da cidade e fica localizado no limite com Jaboatão dos Guararapes. Numa área de morros, o Ibura tem inúmeras escadarias, que dão acesso às várias comunidades localizadas dentro do bairro, entre elas a de Três Carneiros Alto.
População: 50.617 pessoas.
Localização: Na Zona Sul do Recife, em uma área de morros
Origem: Até o século 19, o território era sede do Engenho Ibura, quando parou de moer cana-de-açúcar e, nos seus arredores, se consolidou o bairro. Por ser, no início do século 20, predominantemente área de mata, o local servia como campo de pouso para aeronaves oficiais e, nos seus arredores, nasceu o Aeroporto do Recife. A ocupação ocorreu de forma mais acelerada com as construções da Companhia de Habitação (Cohab), que dá nome a uma de suas comunidade, e a criação das Unidades Residenciais (URs), criadas para famílias desabrigadas da cheia de 1966, que atingiu todo o Recife. A origem do nome é tupi e significa “fonte de água”.
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